"The Line" (Original)

Minha manhã começou radiante, fatias de iluminação perfuravam as janelas entreabertas e buscavam irem de encontro ao meu corpo deitado contra a cama perfeitamente dobrada. Meus olhos não pareciam cansados, meu corpo estava leve, meus sentimentos haviam encontrado uma paz interior ridiculamente trêmula e pacífica. Gotas vermelhas banhavam o asfalto e caíam contra o esgoto dos meus sentimentos que me levantavam para mais um dia no mundão, em passos lentos até meu trabalho. Porém, ninguém me olhava. Ninguém conversava. Silêncio assustador, rostos tristes e um grande teor espiritual depressivo.

— Todos estão calados, pode me dizer o por quê? - Supliquei.

Dentro do meu peito, chamas ardem e sobem transformando os meus sentimentos em um calor infernal de raiva em busca de compreender o que significava a falta de diálogo, o silêncio estremecedor que esmagava o meu interior e me tornava pior do que um corpo jogado do quinquagésimo andar em busca de ver as rachaduras de luz encontrarem seu corpo. Ana Maria, em toda via, deverá me auxiliar.

— Maria. - Chamei-a. — Todos me ignoram e… - A Ruiva brandava seus braços pelo quadro de imagens, rasgando minha fotografia. — … eu não sei o porquê. - Infelizmente, aquilo me silenciou. 

Passos incrédulos, incompreensível, irracional. Mesmo a pessoa que acolheu-me dentro desse fantástico lugar repleto de sonhos, produções incríveis que gerariam infinitas possibilidades futuras para aqueles que se banhariam nessa grande piscina chamada “criatividade”. Uma pessoa, talvez aquela pessoa na qual meu coração mais se afeiçoa, a pessoa na qual meu coração deita sua cabeça no seu colo e se sente como se fosse capaz de saltar do mesmo prédio que a despedaçou diversas vezes e apenas flutuar para um mundo na qual só existisse a paz e a tranquilidade.

— Reffinej. - Meu chamado captava sua atenção. Mas mesmo estando próximas, meu ser sentia uma vasta distância. — Problemas me cercam, dores me acercam, receptáculos de todos os vidros quebrados que formam meu coração. Seria você capaz de atender o meu desejo, reerguer as luzes desmanchadas no meu peito, e nas suas angelicais palavras capazes de curar o meu ser e todos ao nosso redor, libertar-me de tudo isso?

— Você ainda não entendeu, garota. - Quase inaudível, palavras eram proferidas de seus lábios. Não tendo a visão de seu rosto, caminhei até sua frente. E em suas mãos, uma fotografia minha banhada em lágrimas. Então, esse era o fatídico porque.

 Retornei a passos lentos para minha residência, empacotada com seus pertences para o próximo dono desse aconchegante lugar que recebeu minhas depressões e tornaria a abraçá-las novamente, possa tomar de conta. Janela estaria aberta dessa vez, pessoas estiveram aqui, observando a vista nas quais minhas lágrimas caiam contra o longínquo asfalto que me abraçou quando eu observei os céus pela última vez e decidi ir de encontro a minha luz, torná-la uma realidade e livrar-me desse peso que era uma existência insignificante que apenas dores eram capazes de me abraçar. Fui egoísta em pensar que nada nesse mundo restava, infelicidade apenas eu tragava, sendo que na realidade haviam pessoas ansiosas para me acolherem, dependerem e viverem ao meu lado.

— Por que? - Perguntei-me, mais uma vez, derramando uma lágrima sem forma. — Por que não consigo confortá-las? - Em um último suspiro, uma luz novamente brilhou em minha frente.

Reffinej e Maria caminhavam juntas. Perante a mesa, uma anotação. As últimas palavras. A Despedida.

— Por que? Porque é simples. Não sabia o porquê, mas agora que eu sei. - Lágrimas Lemical. — Eu amo e confio em vocês. Vivo em seus corações e agora, confortável estou. Esse é o porquê.

Comentários